A arte no filme Trinta

Quando se fala em arte em um filme que retrata a vida do maior gênio do Carnaval brasileiro, Joãosinho Trinta, a primeira impressão é a de um grande desafio, assustador, de algo impensável e intransponível no âmbito da cinematografia. Afinal, trata-se da vida de João Clemente Jorge Trinta, o carnavalesco mais carismático, talentoso e vitorioso da história do Carnaval no Brasil.

O espetáculo do Carnaval é coisa grande, tem uma dimensão épica, é uma explosão de cores, de formas, de brilhos, e  representa a riqueza de toda a cultura de um povo. Desde seu surgimento, o Carnaval não para de crescer e de se tornar mais grandioso e mais deslumbrante. O Carnaval, como dizem por aí, é mesmo o maior espetáculo da Terra.

O trabalho da arte para o filme se tornou mais palpável na medida em que o roteiro do Paulo Machline fazia uma abordagem muito inteligente da vida de Joãosinho Trinta .

O filme conta a estória do desafio que foi a primeira experiência de Joãosinho Trinta como carnavalesco do Salgueiro em 1974. E é nesse curto período da vida de João que se encaixa toda a narrativa ficcional do filme, permeada por lembranças e flash backs que contam detalhes da sua infância e da sua vida artística até se tornar um carnavalesco.

Quando o Carnaval fica pronto e vai para a rua, ao encontro do povo e da glória, o filme abandona a ficção e dá lugar a um grande painel de imagens de arquivo , que mostra o quão grandioso e importante foi o trabalho do gênio Joãosinho para o Carnaval,  para a cultura brasileira  e para a humanidade.

A arte do filme concentra seus esforços em traduzir toda uma época e criar um olhar sensível e fiel para as duas principais atmosferas onde a estória se desenrola: o barracão da Escola de Samba do Salgueiro, onde o primeiro carnaval de Joãosinho “nasceu”,  e o Rio de Janeiro  onde ele vivia quando tudo isso aconteceu entre 1973 e 1974 . Tivemos também que recriar alguns momentos da infância do carnavalesco no Maranhão em 1938 e do tempo em que ele foi de bailarino a regisseur do Theatro Municipal, a partir do final da década de 1950 , quando conheceu Fernando Pamplona, seu mestre e grande amigo, que o levou para o mundo do Carnaval.

A partir de uma rica pesquisa sobre o assunto, conduzida por Antônio Venâncio,  na qual foram garimpados inúmeros filmes, vídeos, curtas, documentários e muitas fotografias raras do Carnaval de 1974 e seus bastidores, em um trabalho de colaboração entre direção, arte , fotografia, figurino e maquiagem, criou-se o conceito visual do filme.

Esse conceito se baseou na tentativa de aproximação da linguagem ficcional com a riqueza e o realismo de tudo aquilo que vimos na pesquisa. Procuramos mimetizar o real na intenção de incorporá-lo como elemento de narrativa para a ficção. Dessa idéia surgiu toda uma gama de formas, texturas, cores, contrastes e luzes que compõem as imagens do filme Trinta.

Para o barracão do Salgueiro encontramos uma locação maravilhosa, um galpão com uma arquitetura original belíssima e conservada. Um espaço com dimensões e proporções ideais, cheio de texturas e detalhes e com uma entrada de luz natural incrível, mágica. Sabendo que o barracão de uma escola de samba é uma fábrica de sonhos, um templo de criatividade onde a emoção humana é levada ao extremo, criamos uma paleta de cores contida e específica para esse universo, com a intenção de reforçar o seu caráter  lúdico.

O Carnaval  do Salgueiro de 1974 , O rei de França na Ilha da Assombração, criado por Joãosinho, era belíssimo, inovador, elegante, cheio de brilhos e com poucas cores… quase que monocromático, um deslumbre. Trouxemos para o filme essa paleta de cores, onde quase tudo era branco, prata, dourado e vermelho. Em um trabalho em conjunto com o figurino e a maquiagem, asseguramos que esse lugar onde o primeiro Carnaval de Joãosinho ganhou vida fosse visualmente especial,  quase onírico, longe do lugar comum.

A construção de um Carnaval com o propósito de ser filmado em várias etapas também foi um enorme desafio. A equipe de arte contou com a colaboração preciosa de cenógrafos, escultores, pintores de arte, aderecistas, costureiras, serralheiros, carpinteiros, entre outros, que fizeram um trabalho primoroso e diferente do trabalho no Carnaval em si.

Todos os carros alegóricos, adereços, tripés, estandartes, fantasias, tudo foi feito para ser desmontado e filmado em diferentes fases de evolução. Usamos muito encaixe, velcro, zíper, fita dupla, arame, e no final o que tínhamos em mãos era um enorme quebra-cabeça, que tinha que ser montado, desmontado e remontado atendendo às necessidades do plano de filmagem e da fase de evolução que as cenas pediam – uma loucura que deu certo!

Já o Rio de Janeiro em 1973/74 era um mundo de cores primárias, nas roupas, nas casas, nos carros: por todo lado havia uma explosão de cores e de luz. Tivemos que recriar e adaptar à época alguns ambientes por onde Joãosinho viveu e passou. O morro do Salgueiro, o Theatro Municipal, bares e botequins, ruas do Centro, Copacabana etc. A escolha das locações foi essencial e algumas adaptações foram trabalhosas, mas muito bem-sucedidas.

Ainda tivemos algumas outras viagens no tempo e espaço, passando por algumas situações que Joãosinho viveu no final da década de 50, onde desenvolveu sua vida artística até se tornar carnavalesco, e fizemos também incursões à sua memória, no tempo em que ele era criança no Maranhão e já dava sinais do artista genial que viria a ser.

Fazer arte para falar de Trinta não é fácil.  Mas o prazer e o amor pelo que fazemos tornou tudo mais fácil. Afinal Joãosinho era um apaixonado pela arte e a ela dedicou sua vida.

Foi um privilégio único assistir de perto ao trabalho primoroso e emocionante que Matheus Nachtergaele fez ao viver Joãosinho Trinta. Seu talento e emoção transbordarão nas telas de cinema , assim como os de Joãosinho transbordavam na Avenida. Tenho certeza de que o filme irá emocionar e se perpetuar no coração de todos .

Daniel Flaksman – diretor de arte

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“Joãosinho Trinta: boas e más de um destino” por Carlos Heitor Cony

ARTIGO 15/02/02

“Joãosinho Trinta: boas e más de um destino”

Folha de São Paulo, por:

Carlos Heitor Cony

Veio do Maranhão diretamente para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Já trazia dentro de si uma alma especial, alma de carnavalesco no sentido não da festa pela festa, mas da alegria do espírito e do prazer que somente a arte dá. O destino foi camarada trazendo-lhe boas e más notícias.

A má notícia é que Joãosinho Trinta, no Corpo de Baile do Municipal, ali pelo final dos anos 50, com aquele tamanho (metro e meio de altura), jamais poderia ser um bailarino nobre, fazer um príncipe de “Gisèlle” ou um “pas-de-deux” do “Lago dos Cisnes”.

Não que lhe faltassem técnica ou capacidade de aprender. Dificilmente seria escalado para um papel importante, porque entre outros motivos jamais encontraria uma partner mais baixa do que ele. A coreografia dos grandes momentos do balé clássico exige a proporção machista do homem maior do que a da mulher.

Sobrariam para ele os papéis característicos, o dr. Copelius, o Hilarião de “Gisèlle”, o Feiticeiro do “Lago dos Cisnes”, os garçons de “Gaitê Parisienne”. E havia o Dennis Gray, que era absoluto e, além de grande bailarino, também coreógrafo.

Essa seria, realmente, a má notícia de sua carreira. Toda a sua aspiração pelo pódio, pela boca de cena, seria travada pela pouca altura, pelo rosto nortista sem as linhas eslavas dos grandes nomes do balé internacional.

A boa notícia é que, pertencendo ao Corpo de Baile como figurante compulsório, ali encontraria um Departamento de Cenografia que foi o aceno para a glória do Carnaval carioca. Trabalhavam no velho anexo do Teatro Municipal as figuras tutelares de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Faziam cenários, figurinos e adereços para óperas e balés, mas já tinham um pé nas escolas de samba. Tanto Pamplona como Arlindo decoravam a avenida para o Carnaval e já brilhavam como campeões do Salgueiro. Eram o Pelé e o Coutinho do Carnaval. Joãosinho Trinta caiu por gravidade onde queria e onde o destino exigia. Seria o Garrincha.

Certas coisas não se aprendem na escola. Mesmo assim, Joãosinho Trinta aprendeu o básico em matéria de cenário, figurino, iluminação e ritmo. E, de repente, o Rio descobriu naquele maranhense baixinho um de seus personagens de maior vitalidade. Estourando na Beija-Flor, depois de cumprir curtos estágios em outras escolas, ele se tornaria figura nacional e até internacional. Mesmo assim, era aquilo que se pode chamar de figurinha difícil. Possuído pela necessidade de criar, aferrou-se a um temperamento que lhe causou inimizades e incompreensões. Louvava-se o seu talento. Reclamava-se de seu comportamento, que alguns consideravam mascarado e muitos outros achavam que era apenas malcriado.

Restrições e louvores transformavam-se na unanimidade anual: ele se superava a cada desfile. Lembro um ano, acho que 1989, eu era diretor de “Fatos&Fotos” e editava um número especial de Carnaval. O Roberto Barreira me ligou do sambódromo, em lágrimas, pedindo mais espaço para o desfile daquela manhã. Dizia que Joãosinho Trinta era um gênio, que colocara mendigos num carro alegórico e a arquibancada despencara, numa consagração que nunca houvera igual numa festa popular.

Dez anos antes, quando veio montar “A Traviata” no Municipal, Franco Zeffirelli ficou deslumbrado com a arquitetura cênica de Joãosinho Trinta, estudou seus trabalhos e absorveu sua técnica para os dois balés do terceiro ato da ópera de Verdi. Mais tarde, fazendo para a Metro o filme homônimo, usou mais uma vez os recursos que aprendera com Joãosinho. Discípulo de Visconti, o diretor de “A Megera Domada” reconhecia o talento do carnavalesco da Beija-Flor.

Contudo o destino trouxe-lhe outra má notícia. Uma isquemia cerebral deixou-lhe sequelas. Por um instante, parecia que as trevas haviam descido sobre o pequenino Sol de metro e meio de altura. A solércia do sistema circulatório se, de um lado, o prejudicou nos movimentos, de outro, alterou para maior e melhor sua fome vital de sucesso. É o garoto do Norte, que atravessou uma fase controvertida, que muitos chegaram a considerar má e definitiva, e sofreu o diabo como rei destronado. Viveu na própria carne aquele drama do imperador dom Pedro 2º recebendo insultos das mesmas bocas que tantos beijos lhe deram outrora.

Mas a boa notícia estava a caminho. Das trevas à luz não foi apenas um enredo da Viradouro no Carnaval de 1997. Foi o roteiro de uma glória. Ele voltou ao pódio, à boca de cena e de lá nunca mais saiu. Ganhando ou perdendo, ele é o logotipo do Carnaval brasileiro, sozinho ou acompanhado pelas deusas das passarelas, como Luíza Brunet, Luma de Oliveira etc.

Com o tempo e a dor, ele se tornou tão íntegro que não mais considera o Carnaval um episódio, um evento à margem da vida e da história. Para ele, Carnaval é a própria vida, a própria história. Não há blasfêmia nem irreverência quando ele insiste em usar símbolos e imagens religiosas no meio de mulheres nuas. Para ele, tudo é uma coisa só, o pecado e a virtude, a graça e a Graça.