“Joãosinho Trinta: boas e más de um destino” por Carlos Heitor Cony

ARTIGO 15/02/02

“Joãosinho Trinta: boas e más de um destino”

Folha de São Paulo, por:

Carlos Heitor Cony

Veio do Maranhão diretamente para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Já trazia dentro de si uma alma especial, alma de carnavalesco no sentido não da festa pela festa, mas da alegria do espírito e do prazer que somente a arte dá. O destino foi camarada trazendo-lhe boas e más notícias.

A má notícia é que Joãosinho Trinta, no Corpo de Baile do Municipal, ali pelo final dos anos 50, com aquele tamanho (metro e meio de altura), jamais poderia ser um bailarino nobre, fazer um príncipe de “Gisèlle” ou um “pas-de-deux” do “Lago dos Cisnes”.

Não que lhe faltassem técnica ou capacidade de aprender. Dificilmente seria escalado para um papel importante, porque entre outros motivos jamais encontraria uma partner mais baixa do que ele. A coreografia dos grandes momentos do balé clássico exige a proporção machista do homem maior do que a da mulher.

Sobrariam para ele os papéis característicos, o dr. Copelius, o Hilarião de “Gisèlle”, o Feiticeiro do “Lago dos Cisnes”, os garçons de “Gaitê Parisienne”. E havia o Dennis Gray, que era absoluto e, além de grande bailarino, também coreógrafo.

Essa seria, realmente, a má notícia de sua carreira. Toda a sua aspiração pelo pódio, pela boca de cena, seria travada pela pouca altura, pelo rosto nortista sem as linhas eslavas dos grandes nomes do balé internacional.

A boa notícia é que, pertencendo ao Corpo de Baile como figurante compulsório, ali encontraria um Departamento de Cenografia que foi o aceno para a glória do Carnaval carioca. Trabalhavam no velho anexo do Teatro Municipal as figuras tutelares de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Faziam cenários, figurinos e adereços para óperas e balés, mas já tinham um pé nas escolas de samba. Tanto Pamplona como Arlindo decoravam a avenida para o Carnaval e já brilhavam como campeões do Salgueiro. Eram o Pelé e o Coutinho do Carnaval. Joãosinho Trinta caiu por gravidade onde queria e onde o destino exigia. Seria o Garrincha.

Certas coisas não se aprendem na escola. Mesmo assim, Joãosinho Trinta aprendeu o básico em matéria de cenário, figurino, iluminação e ritmo. E, de repente, o Rio descobriu naquele maranhense baixinho um de seus personagens de maior vitalidade. Estourando na Beija-Flor, depois de cumprir curtos estágios em outras escolas, ele se tornaria figura nacional e até internacional. Mesmo assim, era aquilo que se pode chamar de figurinha difícil. Possuído pela necessidade de criar, aferrou-se a um temperamento que lhe causou inimizades e incompreensões. Louvava-se o seu talento. Reclamava-se de seu comportamento, que alguns consideravam mascarado e muitos outros achavam que era apenas malcriado.

Restrições e louvores transformavam-se na unanimidade anual: ele se superava a cada desfile. Lembro um ano, acho que 1989, eu era diretor de “Fatos&Fotos” e editava um número especial de Carnaval. O Roberto Barreira me ligou do sambódromo, em lágrimas, pedindo mais espaço para o desfile daquela manhã. Dizia que Joãosinho Trinta era um gênio, que colocara mendigos num carro alegórico e a arquibancada despencara, numa consagração que nunca houvera igual numa festa popular.

Dez anos antes, quando veio montar “A Traviata” no Municipal, Franco Zeffirelli ficou deslumbrado com a arquitetura cênica de Joãosinho Trinta, estudou seus trabalhos e absorveu sua técnica para os dois balés do terceiro ato da ópera de Verdi. Mais tarde, fazendo para a Metro o filme homônimo, usou mais uma vez os recursos que aprendera com Joãosinho. Discípulo de Visconti, o diretor de “A Megera Domada” reconhecia o talento do carnavalesco da Beija-Flor.

Contudo o destino trouxe-lhe outra má notícia. Uma isquemia cerebral deixou-lhe sequelas. Por um instante, parecia que as trevas haviam descido sobre o pequenino Sol de metro e meio de altura. A solércia do sistema circulatório se, de um lado, o prejudicou nos movimentos, de outro, alterou para maior e melhor sua fome vital de sucesso. É o garoto do Norte, que atravessou uma fase controvertida, que muitos chegaram a considerar má e definitiva, e sofreu o diabo como rei destronado. Viveu na própria carne aquele drama do imperador dom Pedro 2º recebendo insultos das mesmas bocas que tantos beijos lhe deram outrora.

Mas a boa notícia estava a caminho. Das trevas à luz não foi apenas um enredo da Viradouro no Carnaval de 1997. Foi o roteiro de uma glória. Ele voltou ao pódio, à boca de cena e de lá nunca mais saiu. Ganhando ou perdendo, ele é o logotipo do Carnaval brasileiro, sozinho ou acompanhado pelas deusas das passarelas, como Luíza Brunet, Luma de Oliveira etc.

Com o tempo e a dor, ele se tornou tão íntegro que não mais considera o Carnaval um episódio, um evento à margem da vida e da história. Para ele, Carnaval é a própria vida, a própria história. Não há blasfêmia nem irreverência quando ele insiste em usar símbolos e imagens religiosas no meio de mulheres nuas. Para ele, tudo é uma coisa só, o pecado e a virtude, a graça e a Graça.

 

1, 3, 7

João Jorge Trinta tinha diversas teorias que repetia insistentemente na vida. Uma delas era a teoria do 1, 3, 7, dos versos dourados de Pitágoras. Ele dizia que, até onde a mente humana alcançar, ela vai sempre encontrar os números 1, 3 e 7. Como dizia Fernando Pamplona, mestre de Trinta, “aquelas porralouquices do João”.

Bom, “porralouquices” ou não, começamos as nossas filmagens de Trinta no dia 21 de abril. 2 + 1 = 3. Abril é mês 4. 4 + 3 = 7.

João diria que não existem coincidências.

Ele não está mais por aqui, mas vai viver pra sempre na nossa memória. E nas telas nos cinemas em 2013.

Como tudo começou

Em 2002, numa temporada de trabalho na França, aproveitei uma folga para me atualizar sobre o Brasil. Sentado em uma praça em Paris li no jornal um texto do Carlos Heitor Cony que falava sobre Joãosinho Trinta. Fiquei surpreso com sua jornada e ali mesmo resolvi que iria fazer um filme sobre ele.

Em 2012, sábado último, começamos as filmagens de Trinta, na Praça Paris, no Rio de Janeiro. Lá, Trinta jovem lê em um jornal seu nome na lista de bailarinos contratados pelo Teatro Municipal, o início de toda uma vida que nem ele sabe aonde vai parar.

Uma praça em Paris, uma Praça Paris, dois jornais.

João diria que não existem coincidências.

Ele não está mais por aqui, mas viverá pra sempre em nossas memórias. E nas telas nos cinemas em 2013.

Paulo Machline